Venezuela e o regresso do imperialismo: soberania, crise e lições a tirar

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Marcela Uchôa

Investigadora do IEF-UC; Ativista Política luso-brasileira.

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Originalmente publicado no Jornal Maio, de autoria de Marcela Uchôa e Sérgio Tapia Argüello.

No âmbito do primeiro debate presidencial Gore-Bush, em outubro de 2000, o então candidato republicano e posterior Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, falou sobre a dependência do seu país do petróleo estrangeiro e a necessidade que tinha de diminuir essa necessidade. Para ele, a solução era muito simples: começar a extrair mais petróleo do México, para não necessitar de parceiros estrangeiros em matéria de hidrocarbonetos.

Esta visão norte-americana é congruente, como o mostram a Doutrina Monroe, a Operação Condor e todas as intervenções feitas por esse país contra governos democraticamente eleitos — pela via armada, quando falham os seus planos de desestabilização —, com uma ideia de superioridade essencial, que se sustenta em visões inclusive genético-culturais, para se assumirem como donos de todo o continente. O México, nessa altura, tal como a Venezuela agora, são deles.

Quando, nos últimos dias de 2025, Donald Trump afirmou que “queremos o nosso petróleo de volta”, ao referir-se aos processos de autodeterminação da Venezuela sobre as suas próprias reservas petrolíferas, e deu início a uma agressiva escalada de pressão económica que, menos de um mês depois, culminaria numa invasão brutal e no sequestro relâmpago do chefe de Estado, limitava-se a reiterar um guião bem conhecido do imperialismo norte-americano. Trata-se do mesmo padrão discursivo e político que, no passado, invocou a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque, na Síria e no Afeganistão para legitimar a intervenção militar e o saque de recursos. Agora, de forma igualmente hipócrita, esse guião reaparece sob o pretexto do combate ao chamado “narcoterrorismo”, utilizado para justificar a apropriação das riquezas da Venezuela.

Perante a invasão sofrida pela Venezuela neste dia, as declarações de Donald Trump — rejeitando, como se tivesse qualquer legitimidade para tal, a participação de líderes da oposição, incluindo Corina Machado, anteriormente desqualificada pela própria administração venezuelana alegadamente por falta de “apoio popular” — não deveriam surpreender ninguém. Pelo menos ninguém que não se tenha deixado seduzir pelo sibilino canto das sereias que, ao longo do tempo, tentaram comprar a consciência de todos aqueles que estivessem nesse país.

Há mais de duas décadas a Venezuela foi palco da revolução bolivariana. Iniciada ainda no final dos anos 1990, a viragem política organizada inicialmente por Hugo Chávez sofreu o seu primeiro golpe em 2002 e, ainda assim, conseguiu um relevante processo de reformas políticas e económicas que tiveram um importante impacto nas condições de vida de uma parcela significativa do proletariado e da população pauperizada venezuelana.

Através de um processo de nacionalização das suas imensas riquezas petrolíferas e aproveitando-se de uma favorável janela histórica de alta dos preços do petróleo, a Venezuela conseguiu, através do controlo estatal da produção e da exportação da sua principal riqueza natural, financiar o seu projeto político e garantir um significativo apoio social, tendo êxito em isolar politicamente os setores mais reacionários da burguesia venezuelana. É importante destacar que, ao contrário das demais experiências do mal chamado “progressismo” na América Latina, a ampla mobilização das massas proletárias e populares na defesa do projeto político em questão foi uma constante ao longo de todo o processo bolivariano capitaneado por Chávez, sendo essa agitação e organização um fator-chave para deslocar a correlação de forças interna e para gerar coesão na defesa contra qualquer ameaça externa.

 

“É importante dizer que o processo bolivariano, a despeito dos seus avanços sociais e de uma importante contestação da política externa do imperialismo, nunca teve a intenção de romper com o modo de produção capitalista.”

Contudo, é importante dizer que o processo bolivariano, a despeito dos seus avanços sociais e de uma importante contestação da política externa do imperialismo, nunca teve a intenção de romper com o modo de produção capitalista. Os interesses políticos e económicos que dirigem o país são, em essência, burgueses, sendo o próprio Estado venezuelano um Estado burguês. O avanço do imperialismo dos Estados Unidos avança na esteira de uma revolução popular degradada, indicando uma corrupção do ideal original por parte do governo, que se afastou dos princípios de igualdade e justiça social.

A crise na Venezuela expõe tanto os limites de certas experiências de esquerda como os dos contrapontos que se apresentam como liberais. A desarticulação e a desmobilização do proletariado — frequentemente promovidas pelo próprio governo de Maduro —, a par da traição das aspirações populares e da incapacidade de implementar uma agenda efetiva de aprofundamento da igualdade, contribuíram para o agravamento da crise. Por outro lado, a recusa de qualquer solução autónoma por parte dos povos da nossa região para escolherem os seus próprios governantes — mesmo quando a alternativa se resume a gestores abertamente pró-Estados Unidos, como o prometido pelo grupo liderado pela recentemente laureada com o Prémio Nobel, Maria Corina Machado — demonstra que a saída não pode assentar na ilusão de soluções que tomam como dados incontestáveis o chamado “direito internacional” ou uma invocação abstrata dos direitos humanos.

Estamos, como resulta claro, perante uma transformação global que recupera uma visão colonial direta que não se via desde as modificações feitas na Segunda Guerra Mundial. A aceitação de “linhas de controlo” entre potências, o regresso da ideia de soberania absoluta para os países centrais – isto é, o fim da ideia de um direito internacional efetivamente baseado em regras de igualdade formal – e de necessária submissão para o resto, bem como o uso indiscriminado de qualquer forma de controlo por parte das potências, aprofundam os processos de fascização social que tinham rompido os limites anteriormente existentes com o desprezo de Israel em Gaza.

“É preciso resgatar os ideais de libertação e soberania popular que originaram a revolução bolivariana e o resto dos processos de transformação na América Latina.”

Por isso, é preciso resgatar os ideais de libertação e soberania popular que originaram a revolução bolivariana e o resto dos processos de transformação na América Latina. Isto só é possível se, em contrapartida, se articularem propostas que escapem ao caudilhismo personalista – hoje é, como se viu, demasiado fácil eliminar um líder individual – e gerem condições de transformação popular que, ao mesmo tempo, lutem ideologicamente com esta nova partilha do mundo, não só no nosso continente, mas também nos espaços que beneficiam dessas divisões, como a Europa.

Sem isto, nenhum país está realmente a salvo. Sem isto, nenhuma noção de democracia pode realmente existir. Porque, se acontecesse agora, o 25 de Abril também levava um bocado de “democracia” à americana.

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