Última atualização: 23/12/2025
No último dia 28 de outubro de 2025, a polícia do Rio de Janeiro deflagrou a Operação Contenção no CPX da Penha e do Alemão. Ao longo daquele dia, muitas informações cheram, mas nenhuma muito precisa. No final daquele dia, os números, na imprensa, variavam de 30 a 60 mortos. Muito elogios, inclusive, à tática aplicada, tida como exemplo de confronto urbano, planejamento e inteligência, a fim de reduzir mortes colaterais. O “Muro do BOPE“, segundo Cláudio Castro, foi uma maneira de encurralar os criminosos em fuga, o que foi negado pelo BOPE. O falto é: alegadamente, a PM do RJ se preparou por 60 dias para cumprir uma série de madados de prisão e terminou por produzir, na sua manobra, um morticínio com poucos paralelos.
Foi no dia seguinte da operação, porém, que algo estarrecedor se revelou. Moradores do CPX da Penha resgataram dezenas de corpos deixados na mata, pela PM, sem socorro, perícia, investigação ou qualquer das obrigações institucionais que se espera no estado legal. Os corpos foram abandonados no lugar do conflito, onde cairam sem vida (quer dizer, sem vida estavam ao fim da madrugada). Os números são confusos. Nas primeiras notícias se falava de 40 corpos. Porém, alguns jornais chegaram a falar em 80 corpos abandonados. Há relatos de corpos amarrados e decaptação.
O Secretário Felipe Cure afirma fraude processual por parte dos moradores que resgataram os corpos abandonados pelo Estado e promete investigação.
A defensora Daniella Matias, pesquisadora do Labipol, militante feminista que atua na defesa das mulheres e dos direitos humanos, alertou para crimes possíveis na conduta da PM: “Ocultar cadáver, crime descrito no art. 211 do Código Penal Brasileiro (CPB) significa destruir, subtrair ou esconder o corpo sem vida de alguém. Vilipendiar cadáver, de sua sorte, art. 212 do CPB é descrita como conduta que menospreza, trata com desdém cadáver ou suas cinzas.” A pesquisadora ainda adverte que “ambas tipificações penais decorrem do homenageado princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, que deve possuir dignidade mesmo depois da sua morte.”
Ao final do segundo dia, os números já ultrapassavam a casa de 100 mortos. Alguns meios da imprensa chegaram a noticiar 133 mortos. Ainda hoje, o número exato varia entre 121 e 122, na imprensa. No relatório preliminar do MP-RJ, foram 121. Cláudio Castro (PL-RJ) promete mais, animado por sua avaliação em alta, após a operação.
“De vítimas ontem, só tivemos os policiais”, avaliou o governador Cláudio Castro.
Na verdade, avaliação política foi virtualmente invariável. Entre o silêncio e o apoio incondicional, tivemos poucas vozes dissonantes. Quase nenhum político, preocupado em sua manutenção no poder, teve coragem de criticar a operação, exceto aqueles que têm um eleitorado fixo e sensível aos casos de violência policial. Na verdade, houve um grande empenho de transformar a pilha de cadáveres em palco de campanha. O próprio governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, ainda sem muita noção da avaliação pública da operação, nas primeiras horas, jogou a culpa no governo da união, afirmando que o RJ estava sozinho e que Lula (PT-SP) não havia atendido o pedido de ajuda. Logo depois, em ligação com Gleisi Hoffmann (PT-PR), Ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Castro se desculpou e disse que foi mal interpretado.
Inúmeros políticos vinculados à chamada bancada da bala, formada por militares da reserva ou da ativa, policiais, delegados, apresentadores de programas policiais etc. foram rápidos na comemoração das mortes. No dia 12 de novembro, a Câmara dos Deputados teve uma sessão solene em “homenagem à operação“. O deputado Doutor Luizinho (PP-RJ) afirmou, por exemplo: “muita gente foi para as redes sociais, foi para a televisão para fazer um posicionamento contra a polícia. Mas, pela primeira vez, a gente os viu tendo que mudar de posição, porque a população esteve do lado do bem“. Guilherme Derrite (PL-SP), líder da Operação Escudo, na baixada santista, expulso da guarda de elite da PM-SP por excesso de mortes e ex-Secretário da Segurança Pública de São Paulo (Secretaria que é investigada por relações com o PCC), chamou os policiais de heróis. Ainda para uso político das mortes, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) exonerou Derrite da SSP-SP para relatar um Projeto de Lei Antifacção, enviado apressadamente pelo Ministro Ricardo Lewandowski, do Governo Federal, mas completamente modificado por Derrite, no sentido de retirar a Polícia Federal da investigação das organizações criminosas, o que gerou grande repercussão, exatamente por que a Polícia comandada por Derrite está sendo investigada por ligações com o crime organizado.
“Muita gente foi para as redes sociais, foi para a televisão para fazer um posicionamento contra a polícia. Mas, pela primeira vez, a gente os viu tendo que mudar de posição, porque a população esteve do lado do bem“, Doutor Luizinho (PP-RJ).
Observe-se na declaração acima a constante tentativa de criar uma disputa do bem contra o mal; do amigo e do inimigo. Esse tipo de narrativa foi constante da recepção política da Operação Contenção.
Cláudio Castro havia pedido veículos blindados de uso exclusivo das Forças Armadas. A avaliação do Ministério da Defesa e da AGU é que o emprestimo só poderia ser efetuado, conforma a lei, com a decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que deve partir sempre da iniativa do próprio governador. Temia-se, inclusive, o descaminho dos veículos da Marinha, dada a relação próxima do Estado do Rio de Janeiro com o crime organizado.
Manchete do Grupo Globo, 01/12/2025.
A apuração do Poder 360.
https://www.dw.com/pt-br/imagens-cedidas-pela-pm-n%C3%A3o-esclarecem-opera%C3%A7%C3%A3o-no-rio/a-74659268






