Virtualmente em Tahir, no Egito, a ‘Geração à rasca’, em Portugal, tornou-se viral, bem como o Movimento Passe Live, no Brasil

Quase toda a nossa comunicação – incluindo muitas partilhas deste texto – passa hoje pelas plataformas digitais. Elas tornaram-se a infraestrutura básica da vida social, política e económica. Há quinze anos, muitos acreditaram que essas redes iriam impulsionar uma democratização horizontal e popular: estivemos virtualmente em Tahrir, a Geração à Rasca tornou-se viral. Hoje, poucos se iludem – a não ser os que defendem que a democracia passa pela vitória do discurso de ódio moldado pelos algoritmos e pelas caixas de comentários, erradamente chamadas por certo progressismo bem-pensante de “conversa da tasca”.

 

“Entretanto, o dono da tasca não só influencia os boatos do bairro como molda todo o discurso político e comercial da comunidade. Claro que uma tasca normal não funciona assim. Quem funciona assim são os algoritmos: as redes sociais, o Facebook, o Instagram, o X e afins”. 

 

Imaginem agora uma tasca onde o dono, um velho semi-mafioso e rancoroso que se enriqueceu à custa dos clientes e das horas mal-pagas do barman precário, controla tudo o que é dito naquele estabelecimento. É ele que decide quem se senta com quem à mesa, que música toca de fundo, quem pode falar e quem tem de se calar – pode até pôr pessoas em “mute”, como se gerisse tudo pelo Zoom. Dá ordens ao segurança sobre quem é banido por não cumprir as regras. Como o seu tasco é o único do bairro, é também ali que o vendedor de peixe e o vendedor de jornais vão vender as suas coisas. E nós, toxicodependentes, somos obrigados a voltar sempre, porque é o único lugar de comunicação e de comunidade que nos resta. Entretanto, o dono da tasca não só influencia os boatos do bairro como molda todo o discurso político e comercial da comunidade.

Claro que uma tasca normal não funciona assim. Quem funciona assim são os algoritmos: as redes sociais, o Facebook, o Instagram, o X e afins. Os Musks e Zuckerbergs deste mundo são os verdadeiros donos da tasca. Toda a nossa comunicação – pessoal, política ou comercial – é por eles filtrada, moldada, construída e aniquilada. São eles que decidem que notícias vemos, que gerem os nossos contactos e até com quem nos tornamos amigos. De forma quase totalitária, influenciam a política. E sabem tudo sobre nós – mais do que nós próprios: localização, trabalho, cartões de crédito, apps de transportes, saúde, ginásios, calendários, tudo.

 

“Mas esta esfera pública nunca foi realmente universal. As divisões de classe e as desigualdades do capitalismo restringiram-na rapidamente. Mulheres, estrangeiros, escravizados e trabalhadores dependentes – que mal frequentavam esses cafés – ficaram excluídos”.

 

Podemos então perguntar se, com esta sociedade controlada por algoritmos, não eliminámos os últimos resquícios do que ligava a democracia liberal ao capitalismo. Os Teóricos da democracia liberal como Hannah Arendt e Jürgen Habermas consideravam a esfera pública – o espaço de deliberação racional entre cidadãos, de debate de ideias mediado pela comunicação – como elemento central da democracia burguesa. É ela que permitiria a coexistência de ideologias, partidos e movimentos. Habermas localiza o nascimento desta esfera pública nos cafés e casas de chá do século XVIII, as tascas burguesas, onde comerciantes e intelectuais se reuniam para discutir ideias livres, fora da ideologia da Igreja e do rei. É aí que nasciam os jornais, as liberdades políticas e comerciais, a divisão de poderes.

Mas esta esfera pública nunca foi realmente universal. As divisões de classe e as desigualdades do capitalismo restringiram-na rapidamente. Mulheres, estrangeiros, escravizados e trabalhadores dependentes – que mal frequentavam esses cafés – ficaram excluídos. O seu discurso, nas suas próprias esferas públicas de classe, nos bares e associações, passou a ser desprezado como “conversa da tasca”: em oposição à conversa racional, erudita e tecnicamente informada da burguesia, a fala popular – populista, anarquista, socialista – foi reduzida a ignorância, emoção e “falta de chá”.

Enquanto hoje é comum, sobretudo entre as elites intelectuais de esquerda, desqualificar o discurso populista e reacionário como mera “conversa de tasca”, esse desprezo elitista ignora o papel histórico que a tasca teve na própria democracia. Para a maioria da população, é ali que a socialização política acontece: onde as pessoas se encontram, discutem os seus problemas, onde os mais jovens aprendem com os mais velhos e se constrói identidade e solidariedade. Não é por acaso que o movimento operário histórico criou casas do povo – bares e espaços pensados para o encontro, a organização e a construção de uma cultura operária, comunitária e socialista.

 

“O problema é que a tasca foi substituída pelo algoritmo. E este, protegido pela propriedade privada, privatizou de facto o espaço público. A democracia passou a funcionar sob a tutela dos donos da infraestrutura”.

 

Todos sentimos já o efeito desta nova droga – muito mais potente do que o café, o chá ou a cerveja das tascas e dos salões, até mais forte do que o ópio do povo na igreja. Como fumadores incapazes de largar o tabaco apesar da morte quase certa, permanecemos presos a estas plataformas.

“Ironicamente, enquanto o Irão desligou recentemente a internet para tentar salvar um regime teocrático da mobilização popular, no Ocidente começa a tornar-se pensável que desligar – ou pelo menos domesticar – a internet seja uma forma de salvar a democracia liberal”.

Mas uma resposta mais desejável e politicamente fértil do que a censura tecnológica é a construção deliberada de uma alternativa ao algoritmo: a recriação de espaços de contacto e socialização direta, nos bairros, nos locais de trabalho e nos sindicatos, com fins associativos e políticos – e não comerciais –, como base da organização cultural e política coletiva.