O extremismo na Alemanha não se resume apenas a AfD

Para compreender as tensões que definem a Alemanha contemporânea, é preciso abandonar a ideia de que o país é um bloco de estabilidade inabalável. Embora a imagem internacional da Alemanha seja a de uma potência eficiente e democrática, por baixo dessa superfície ferve um ecossistema de extremismos que desafia o Estado de formas distintas. Entender esse cenário exige olhar para além da AfD (Alternative für Deutschland), o partido que domina as manchetes, e perceber como grupos marginais, ideologias importadas e movimentos de resistência radical moldam o debate público e a segurança nacional.

 

“A Alemanha se define como uma “democracia defensiva” (wehrhafte Demokratie). Este conceito, nascido das cinzas do pós-Segunda Guerra, estabelece que o Estado não deve ser neutro diante daqueles que tentam destruí-lo. É por isso que o serviço de inteligência interna monitora partidos e grupos que, em outras democracias, poderiam ser vistos apenas como excêntricos. A AfD é o exemplo mais nítido dessa vigilância.”

A Alemanha se define como uma “democracia defensiva” (wehrhafte Demokratie). Este conceito, nascido das cinzas do pós-Segunda Guerra, estabelece que o Estado não deve ser neutro diante daqueles que tentam destruí-lo. É por isso que o serviço de inteligência interna monitora partidos e grupos que, em outras democracias, poderiam ser vistos apenas como excêntricos. A AfD é o exemplo mais nítido dessa vigilância. O partido começou como uma crítica técnica ao Euro, mas transicionou para um nacionalismo populista que flerta abertamente com o revisionismo histórico. No entanto, a AfD é apenas a face institucional de algo muito mais profundo. Ela serve como um guarda-chuva político para indivíduos que, muitas vezes, sentem que a cultura alemã está sendo diluída por uma elite cosmopolita e por fluxos migratórios incessantes.

 

“Conectado a essa mentalidade, mas operando fora das urnas, estão alguns movimentos desconhecidos do público brasileiro. Se a AfD usa o terno e a gravata do parlamento, esses movimentos extremistas usam a estética das redes sociais e do marketing moderno. Eles representam a “Nova Direita”, um grupo que evita os símbolos grosseiros do neonazismo clássico para focar no que chamam de “etnopluralismo”. A tese deles é sofisticada na forma, mas excludente no conteúdo: defendem que cada povo deve permanecer em seu espaço geográfico original para preservar sua “essência”.”

Conectado a essa mentalidade, mas operando fora das urnas, estão alguns movimentos desconhecidos do público brasileiro. Se a AfD usa o terno e a gravata do parlamento, esses movimentos extremistas usam a estética das redes sociais e do marketing moderno. Eles representam a “Nova Direita”, um grupo que evita os símbolos grosseiros do neonazismo clássico para focar no que chamam de “etnopluralismo”. A tese deles é sofisticada na forma, mas excludente no conteúdo: defendem que cada povo deve permanecer em seu espaço geográfico original para preservar sua “essência”. Eles não querem um golpe de Estado imediato, mas uma mudança na “metapolítica”, ou seja, querem mudar o que é considerado aceitável dizer e pensar na sociedade alemã, preparando o terreno para uma transformação radical no futuro.
Ainda no espectro da direita, mas com uma abordagem mais clássica e agressiva, estão partidos como o Der III. Weg (A Terceira Via) e o Die Heimat. Aqui, o verniz moderno desaparece. São grupos que mantêm estruturas paramilitares, treinos de combate e uma retórica de supremacia étnica explícita. Ao mesmo tempo, no campo, surgem os Völkische Siedler (Colonos Etnonacionalistas), um fenômeno ainda isolado geograficamente, no qual famílias compram terras em áreas rurais isoladas para criar comunidades “puras”, infiltrando-se silenciosamente em associações locais para dominar a vida social de vilarejos longe dos olhos da capital. O Estado de Mecklenburg-Vorpommern (nordeste do país) tem sido particularmente monitorado por esse fenômeno.
Em um plano muito mais isolado, mas consideravelmente perigoso, encontramos os Reichsbürger, ou “cidadãos do império”” Para um leitor estrangeiro, a premissa desse grupo soa como ficção científica jurídica: eles acreditam que a atual República Federal da Alemanha não é um Estado soberano, mas uma empresa de responsabilidade limitada criada pelos Aliados após 1945. Segundo essa lógica, as leis alemãs, os impostos e até as multas de trânsito seriam ilegais, pois o verdadeiro Império Alemão nunca teria deixado de existir formalmente. Recentemente, a inteligência alemã desmantelou células dos Reichsbürger que planejavam ataques armados contra o Parlamento, revelando que a negação da realidade jurídica pode ser o primeiro passo para o terrorismo doméstico.
Entretanto, o extremismo na Alemanha não é um fenômeno exclusivo da direita. O país possui uma tradição vibrante, e muitas vezes violenta, de extremismo de esquerda. Grupos como os “Autônomos” e núcleos da Antifa operam sob uma lógica de confronto direto contra o que definem como as três faces do mal: o fascismo, o capitalismo e a repressão estatal. A violência aqui tem se tornado mais técnica. A chamada Hammerbande (Gangue do Martelo, que operou em Hamburgo entre 2015 e 2016, marcou uma escalada local ao realizar ataques físicos coordenados contra indivíduos identificados como neonazistas, enquanto as Vulkangruppen (Grupos Vulcão) focam na sabotagem de infraestrutura. O ataque incendiário à fábrica da Tesla, em 2024, reivindicado por grupos ligados ao eco-extremismo, é o exemplo mais emblemático dessa nova fronteira, que vê as grandes corporações tecnológicas como alvos legítimos em uma guerra para “salvar o planeta” e destruir as bases do capital.

 

“Dentro da própria esquerda, existe um racha ideológico fascinante e único na Alemanha: a divisão entre os “anti-imperialistas” e os Antideutsche (antialemães). Enquanto a esquerda tradicional foca na crítica aos EUA e a Israel (vista como parte da luta anti-imperialista), os Antideutsche são alemães que odeiam a própria ideia de Alemanha. Nascido do trauma do Holocausto e do medo de que a reunificação de 1990 trouxesse de volta um “Quarto Reich”, esse grupo acredita que a nação alemã é inerentemente perigosa e que sua cultura deve ser enfraquecida.”

Dentro da própria esquerda, existe um racha ideológico fascinante e único na Alemanha: a divisão entre os “anti-imperialistas” e os Antideutsche (antialemães). Enquanto a esquerda tradicional foca na crítica aos EUA e a Israel (vista como parte da luta anti-imperialista), os Antideutsche são alemães que odeiam a própria ideia de Alemanha. Nascido do trauma do Holocausto e do medo de que a reunificação de 1990 trouxesse de volta um “Quarto Reich”, esse grupo acredita que a nação alemã é inerentemente perigosa e que sua cultura deve ser enfraquecida. Paradoxalmente, eles são os defensores mais ferrenhos de Israel e dos Estados Unidos dentro da esquerda, vendo neles os únicos baluartes capazes de conter o ressurgimento do fascismo alemão ou islâmico. Para um Antialemão, o patriotismo é uma patologia, e a única forma de ser um alemão ético é agir contra os interesses da própria nação.
Para complicar ainda mais o cenário, a Alemanha lida com o extremismo “importado”, sendo os Lobos Cinzentos (Ülkücü) o exemplo mais significativo. Este grupo ultranacionalista turco é, numericamente, um dos maiores movimentos extremistas no país. Eles pregam a supremacia turca e nutrem ódio profundo contra minorias como curdos e judeus. A existência dos Lobos Cinzentos mostra que o extremismo na Alemanha não é apenas uma disputa entre “alemães de esquerda” e “alemães de direita”, mas também um reflexo de conflitos geopolíticos externos que encontram solo fértil dentro das comunidades de imigrantes.
Ao analisarmos onde esses grupos convergem, percebemos que, apesar de suas ideologias opostas, eles compartilham um inimigo comum: o sistema liberal-democrático. Tanto um militante da AfD quanto um anarquista da Antifa ou um cidadão do império concordam que o Estado alemão atual é ilegítimo ou manipulado por forças externas. Todos eles operam em câmaras de eco onde a confiança nas instituições foi completamente erodida. A divergência reside na utopia que buscam. Enquanto a direita radical anseia por um passado romantizado e homogêneo, a esquerda radical projeta um futuro sem classes e os Antialemães desejam a dissolução da própria identidade nacional para evitar a repetição da história.

 

“O desafio para a Alemanha é hercúleo, pois o extremismo moderno não se apresenta mais apenas com botas militares, mas através de cabos de fibra ótica, discursos parlamentares polidos e sabotagens infraestruturais. O país é hoje um campo de batalha ideológico onde o consenso está se tornando um artigo de luxo.”

O desafio para a Alemanha é hercúleo, pois o extremismo moderno não se apresenta mais apenas com botas militares, mas através de cabos de fibra ótica, discursos parlamentares polidos e sabotagens infraestruturais. O país é hoje um campo de batalha ideológico onde o consenso está se tornando um artigo de luxo. Entender que o cenário não se resume a um único partido é fundamental para compreender por que o Estado alemão se sente tão ameaçado: ele está sendo atacado por todos os lados, muitas vezes por pessoas que usam as mesmas liberdades democráticas para tentar derrubar o sistema que as protege.