Dia: 2 de janeiro de 2026

  • A extrema-direita europeia depois de 1945: uma breve história

    A extrema-direita europeia depois de 1945: uma breve história

    Depois de 1945, a Europa não começou um “novo capítulo limpo”. Começou uma reconstrução com medo de repetição. As democracias ocidentais ergueram constituições, tribunais e tabus para impedir a volta do fascismo, mas tabus não apagam redes, memórias e ambições. A extrema-direita reapareceu cedo e aprendeu a primeira regra do pós-guerra: trocar a linguagem de ruptura por uma linguagem de “defesa” da nação, da ordem, da família e de uma identidade supostamente ameaçada.

    Ao mesmo tempo, o continente não era homogêneo. Portugal e Espanha seguiram como ditaduras nacionalistas de direita por décadas. Franco morreu no poder em 20 de novembro de 1975 e o regime português caiu em 25 de abril de 1974. Essa continuidade importou porque mantinha viva, dentro da Europa, uma normalidade autoritária que contrastava com o “antídoto constitucional” do pós-guerra e preservou linguagens políticas de ordem e tradição como oficialidade, não como clandestinidade.

    Se a pergunta é “quem foi o primeiro” depois da guerra, a resposta depende do critério. Para reentrada eleitoral em uma democracia do pós-guerra, o caso clássico foi a Itália, com o Movimento Social Italiano (Movimento Sociale Italiano) fundado em 26 de dezembro de 1946, tentando representação parlamentar com raízes neofascistas. A Alemanha mostrou o outro lado do pós-guerra: o limite jurídico duro contra continuidades nazistas, simbolizado pela proibição do Partido Socialista do Reich (Sozialistische Reichspartei) em 1952 pelo Tribunal Constitucional Federal (Bundesverfassungsgericht).

    A partir dos anos 1970, quando a sensação de estabilidade econômica começou a ruir, o terreno político mudou. A crise do petróleo de 1973 foi um marco porque inaugurou inflação, desemprego e uma ansiedade social que abriu espaço para mensagens de controle imediato e culpados claros. E aqui vale um parêntese curto, porque “populismo” não é uma palavra com um único dono. Há quem o defina como uma ideologia mínima (thin-centered ideology): uma visão que divide a sociedade entre “povo puro” e “elite corrupta” e promete que a política deve seguir a vontade geral (volonté générale) do povo. Outros preferem uma definição mais cortante: o núcleo do populismo seria o antipluralismo (anti-pluralism), a ideia de que só um grupo fala em nome do “povo verdadeiro” e que os adversários são, por natureza, ilegítimos.

    Há também uma leitura mais democrática e menos moralista: Margaret Canovan descreveu o populismo como algo que crescia da tensão entre uma democracia pragmática (pragmatic), feita de acordos e administração, e uma democracia redentora (redemptive), feita de promessa de resgate do poder “para o povo”. E, se você quiser uma chave mais “de palco”, Benjamin Moffitt tratou o populismo como estilo político (political style): uma performance pública que dramatizava crise, conflito e urgência para capturar atenção e impor o ritmo do debate.

    É nesse clima que a extrema-direita passou a explorar o formato moderno de massa: populismo. Em vez de falar abertamente “nós queremos um regime”, ela passou a dizer “nós vamos proteger você”, e ela usou uma narrativa que funcionava bem em qualquer língua: “povo” contra “elite”, “nós” contra “eles”. A França virou referência porque a Frente Nacional (Front National), fundada em 1972 e, por décadas, liderada por Jean-Marie Le Pen, construiu uma máquina durável que normalizou a imigração e a identidade como eixo do debate.
    O fim do bloco soviético, entre 1989 e 1991, fechou uma era para abrir outra. No Leste e no Centro europeu, transições econômicas difíceis e recomposições nacionais criaram espaço para nacionalismos duros e políticas de inimigos internos. No Oeste, a integração europeia e a sensação de perda de controle alimentaram discursos soberanistas, com “Bruxelas” como abreviação das instituições da União Europeia, apresentadas como uma elite distante, embora muitas decisões passassem também pelos governos nacionais no Conselho. Essa fase consolidou um mecanismo que explicou por que a extrema-direita cresceu mesmo quando não ganhou as eleições: ela se deu pelo contágio. Partidos tradicionais endureceram a linguagem e as políticas de imigração e segurança para não perder eleitores, e com isso legitimaram a moldura mental da extrema-direita. O eleitor aparentemente tendeu a preferir o original à cópia, e a extrema-direita passou a vencer também redefinindo o que se discutia e como se discutia.

    Nos anos 2000, a Europa entrou em uma sequência de abalos que corroeram confiança e aumentaram ressentimento: globalização acelerada, insegurança econômica, e depois a crise financeira e a crise do euro, que atingiram em cheio a crença de que a democracia “entrega” e de que as elites controlavam o rumo das coisas. Nessa etapa, a extrema-direita deixou de ser apenas uma ferramenta de protesto e se tornou instrumento de poder, seja por coalizões, seja por apoio externo, seja por chantagem parlamentar. A Hungria marcou uma mudança de patamar: a coalizão Fidesz–KDNP, formada pela Aliança Cívica Húngara (Fidesz – Magyar Polgári Szövetség) e pelo Partido Popular Democrata Cristão (Kereszténydemokrata Néppárt, KDNP), venceu as eleições de 2010 sob a liderança de Viktor Orbán, primeiro-ministro, e com Pál Schmitt como presidente da República a partir daquele ano. O resultado foi uma maioria de dois terços no parlamento, inaugurando um ciclo de poder duradouro e um modelo iliberal que alterou o debate europeu sobre democracia e Estado de Direito. Aqui o ponto foi bastante simples e incômodo: quando um caso mostrou que dava para governar e reconfigurar instituições, a ideia se tornou exportável.

    A pandemia de 2020 acelerou tudo o que já estava em movimento. Medo, isolamento, perda de renda, medidas estatais intrusivas e desconfiança criaram um ambiente perfeito para teorias conspiratórias e desinformação. Documentos europeus sobre radicalização descreveram como extremistas de diferentes matrizes exploraram “fake news” e conspirações no contexto da COVID-19 e do ambiente anti-governo. No pós-pandemia, a extrema-direita apareceu como força estrutural em vários países. A Itália virou símbolo quando Giorgia Meloni assumiu como primeira-ministra em 22 de outubro de 2022, liderando um governo amplamente descrito como o mais à direita no país desde a Segunda Guerra. Portugal mostrou a dinâmica ibérica em versão democrática: em 2025, o Chega se tornou a segunda força parlamentar, com cerca de 23% e 60 cadeiras.

    Na Espanha, o Vox perdeu força em 2023 no parlamento nacional, mas seguiu influente e voltou a crescer regionalmente, mostrando que o avanço não depende apenas de “vencer o país”, mas de ocupar territórios e condicionar coalizões. Na França, além do campo Le Pen, surgiu um polo que tentou empurrar o debate para uma linha ainda mais dura: o jornalista e candidato Éric Zemmour lançou o partido Reconquista (Reconquête), apresentado publicamente em 5 de dezembro de 2021. O partido se organizou em torno de uma agenda centrada em identidade nacional, assimilação cultural, endurecimento da política migratória e do asilo, reforço de ordem e segurança e uma retórica de “recuperação” do controle político e cultural, com foco recorrente em imigração e islamismo.

    A Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD) saiu da margem e virou peça central do tabuleiro: nas eleições europeias de 2024 chegou a cerca de 15,9% e 15 cadeiras, e nas eleições federais de 2025 conquistou 152 assentos no parlamento. O caso alemão, por razões históricas e institucionais muito específicas do pós-guerra, merece um texto à parte, porque ali o choque entre memória, direito constitucional e disputa política é mais tenso e mais revelador do que em quase qualquer outro país europeu.

    No plano europeu, a força virou também matemática institucional. Depois das eleições de 2024, grupos de extrema-direita ampliaram tamanho e capacidade de travar agendas no Parlamento Europeu, e os Patriotas pela Europa (Patriots for Europe) começaram a legislatura com 84 assentos, o que aumentou recursos, tempo de fala e poder de bloqueio. O fio que amarra tudo sem deixar ponta solta é este: a extrema-direita europeia cresceu porque aprendeu a sobreviver no pós-guerra, porque crises econômicas e identitárias abriram demanda por pertencimento e controle, porque o centro político normalizou sua moldura ao copiá-la, e porque a era digital, acelerada pela pandemia, tornou a política mais emocional, mais cansativa e mais vulnerável à desinformação. Em outras palavras, ela não venceu apenas pelo voto. Ela venceu porque conseguiu mudar a linguagem do aceitável.

    Capa Letras Hoje, 2025

    Escrita íntima, opressão doméstica e feminismo em La Paix des ruches (1947) de Alice Rivaz

    Leitura crítica de La Paix des ruches (1947),de Alice Rivaz.

    A extrema-direita europeia depois de 1945: uma breve história

    A extrema-direita reapareceu cedo e aprendeu a primeira regra do pós-guerra: trocar a linguagem de ruptura por uma linguagem de “defesa” da nação, da ordem, da família e de uma identidade.
    Friedrich Merz

    O problema não é só a AfD: Merz, o chanceler “sincerão”

    A pequena fala de Merz sobre o Brasil não é um episódio isolado.
  • Terceiro relatório sobre as condições dos estudantes isolados no CH-UECE

    Terceiro relatório sobre as condições dos estudantes isolados no CH-UECE

    Terceiro relatório sobre as condições dos estudantes isolados no CH-UECE

    02/01/2026

    Terceiro Relatório em PDF.

     

    1) A ocupação Palestina Teimosa segue isolada no Centro de Humanidades da UECE. Apoiadores externos promoveram atividades da calçada do campus – apresentações artísticas, aulas e confraternizações. Não conversei com nenhum dos sujeitos em isolamento sobre isso, mas me parece ter mitigado a sensação de isolamento deles.

    2) Nas redes sociais, os estudantes continuam apresentando sentimentos de raiva, impotência e revolta com a Reitoria da Universidade Estadual do Ceará. As reclamações aumentaram com uma nota enviada via mala direta à toda a comunidade acadêmica, com informações consideradas falsas e enganadoras. Os estudantes lançaram uma segunda nota, em resposta, mas demonstraram profunda decepção, no dia 31, por não conseguirem enviar para a comunidade acadêmica, por lhes faltarem acesso à mala direta.

    3) Tenho notado que o comprometimento psicológico e moral dos estudantes se agravou. Eles estão contando menos piadas e rindo menos. Demonstram-se introspectivos e, por vezes, sem esperança. Considero isso um alerta importante, dado o histórico de depressão relatado no primeiro relatório.

    4) No decorrer da semana entre Natal e Ano Novo, os estudantes receberam familiares, mas também perderam algum dos integrantes da ocupação. Um deles relatou infecção na garganta. Outro sujeito relatou dor na garganta, no dia 31. Tenho evitado fazer perguntas aos sujeitos da ocupação. Só busco saber sobre as condições de alimentação e água, que são casos mais emergenciais para uma ação deste Laboratório.

    5) Quanto a alimentação, ao que tudo indica tivemos uma melhora. Os estudantes receberam boa quantidade de alimentos cozidos, pizza, esfirras e algumas frutas. A questão central continua sendo a preservação dos alimentos e a impossibilidade de esquentá-los. A reclamação segue sendo o decaimento dos alimentos no decorrer das refeições. Há relatos de produtos estragados e a impossibilidade de consumo de bebidas frias. O consumo de água segue o já relatado. Considero, até onde pude saber, que alimentação não está sendo uma questão de preocupação, nesse dia de hoje.

    6) A higiene é uma questão. Embora tenha recebido relatos de que os alunos revezam a limpeza dos espaços utilizados, o informe de retos, baratas e outros questões sanitárias são constantes. Alerto à comunidade que tais animais são vetores de doenças graves e que a exposição a eles deve ser um alerta importante.

    Considerações críticas

    7) Os sujeitos são considerados, por este Laboratório, em exposição e vulnerabilidade. Consideramos que a decisão da UECE é a responsável por colocar os estudantes em vulnerabilidade. Pode-se alegar que eles podem sair e, por isso, não são vulneráveis. Mas o dilema ético imposto pela reitoria (sair e renunciar à causa, ficar e permanecer em vulnerabilidade) consuma um fato: eles são vulneráveis. A reitoria alerta para controle de entrada e saída. Ora, seria possível manter controle de entrada e saída dos estudantes, para que pudessem ir em casa, ver seus familiares, descansarem, comerem bem etc. A decisão da reitoria, por outro lado, abdica de tal solução razoável, mantendo a tática policial de destruição moral e psicológica. Não há, portanto, segundo relatos da reitoria, uma situação sem escolha.  

    8) Além disso, se o controle de entrada é fundamental para a preservação do patrimônio, por qual razão servidores e professores estão impedidos de entrar? A função de preservar o patrimônio é compartilhada entre o reitor e este servidor. Entendo e defendo que a universidade tem uso específico, mesmo sendo pública, mas eu e meus colegas somos o público específico desta universidade, não? Soa profundamente estranho que o reitor queira manter professores longe da ocupação.

    9) Quanto ao ofício de solicitação de entrada no campus que eu enviei para a reitoria, como já relatado, só recebi uma mensagem, via Assessoria Jurídica. Algo que me soou um tanto intimidatório:

    A) A Asjur acha estranho o caráter interventivo do Labipol e solicita documentações do laboratório, o que me pareceu uma estratégia de deslegitimação do trabalho de pesquisadores experientes e jovens pesquisadores que estão atuando em 3 países diferentes. O Labipol surge do Grupo de Pesquisa Política e Violência. Começou sua organização em 2023, ainda vinculado ao Lapovili, quando estivem em missão de pesquisa em Coimbra e me deparei com os discursos xenofóbicos e racistas, bem como a ascensão do novo extremismo de direita na Europa, tal como tinha visto no Brasil. Organizei com colegas para mantermos a observações dos acontecimentos e produzi, junto com minha supervisora no IEF-UC, Doutora Marcela Uchôa, dois textos seminais para a organização do Labipol. Apenas em 2025, com minha saída do Lapovili, tive o ímpeto de criar um laboratório específico, com escopo coincidente do Grupo de Pesquisa citado. Em novembro, com a organização do V Colóquio Teoria Crítica, na UFC, vi a oportunidade de me juntar aos colegas e promover a institucionalização do Labipol. Comprei o domínio da internet em novembro e com o fim do semestre letivo, entre o final de novembro e o começo de dezembro, institucionalizei o Laboratório de Violência e Política, que já foi aprovado por unanimidade no Concelho do Centro de Humanidades e está sob a guarda do PROPGPq, da UECE. Como prática institucional, a UECE considera a fundação com a data retroativa do início do processo, portanto, o Labipol é um laboratório da UECE de FATO.

    B) A Asjur afirma que informei “visita in locu ao CH”, mas não há essa afirmação nos meus relatórios. Aliás, o meu pedido inicial é entrar no CH, como eu poderia pedir para entrar no CH se eu estivesse entrando no CH? Estive sim no lado de fora do CH e pedi para entrar, mas como informei, não me foi autorizado. A Asjur tenta formular algo como uma entrada forçada da minha parte? Sempre pensei que a Assessoria Jurídica da UECE tinha função, inclusive, de garantir a liberdade de cátedra e de pesquisa, não de criar factoides para tentar constranger os pesquisadores da instituição.

    C) A Asjur informa que eu apliquei questionários de forma irregular, pois todas as pesquisas com seres humanos requereriam passagem por um Comitê de Ética. Devo dizer que, se esse for o caso, uma grande parcela de pesquisas sociais da UECE e de outras instituições do mundo estão fadadas a sumir. Veja: há um erro factual das Asjur, que deve desconhecer a Resolução nº 5, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde. O princípio norteador é que a pesquisa em Ciências Humanas e Sociais são eticamente corretas se não criam danos ou riscos maiores do que a própria vida dos sujeitos. Todavia, mesmo que este pesquisador esteja respaldado pelas resoluções de pesquisa, tomamos todos as precauções, como apresentar TCLE com informações de possíveis riscos e a inexistência de sansões por desistência (https://labipol.com.br/questionario-sobre-condicoes-fisicas-morais-e-psicologicas-dos-alunos-da-ocupacao-palestina-teimosa/). Sobre conflitos de interesse, todos eles estão relatados nos relatórios preliminares, onde indico ser apoiador do movimento, e como se deve saber, não recebo dinheiro dos estudantes ou do Movimento Estudantil para apoiá-los.

    D) Ademais, meu interesse de conhecer o caso da Ocupação Palestina Teimosa decorre de um fato único e inesperado. Os fatos impuseram metodologia, não o inverso. O primeiro desenho metodológico realizado surge diante de três urgências: a) produzir conhecimento sem ter acesso ao espaço interno do prédio onde os estudantes estão isolados; b) conhecer (para responder) qualquer urgente demanda que pusesse os estudantes em risco imediato (e três foram identificadas); c) saber o que fazer em um caso de emergência. Optar pelo questionário on-line foi a melhor estratégia que avaliei, uma vez que eu não teria contato direto com os sujeitos, garantido o anonimato e não gerando constrangimentos. Os achados, que impuseram ações imediatas, foram relatados na primeira preliminar e no seu adendo.

    E) A Asjur ainda faz menção a um possível viés da minha pesquisa, já que eu declaro apoiar o movimento. Esse é o ponto mais grave levantado pela acusação. A Assessoria Jurídica da UECE não se conteve em fazer análises metodológicas, mas também fez apreciações de conteúdo, com isso. Devo alertar para o risco do precedente de um órgão jurídico assumir a função de par, no sentido de promover evidente entrave para a produção do conhecimento e um movimento evidente de intimidação.

    F) A Asjur não é referee de pesquisa científica. Considero gravíssimo que assim se porte. Dado uma solicitação clara e fundamentada de entrada de um professor e pesquisador da UECE no Campus Fátima, a Asjur procedeu um verdadeiro inquérito do santo ofício. Nesse sentido, estou encaminhando tal relato para meus superiores acadêmicos na UECE, meus colegas de Grupos de Pesquisa, para as sociedades científicas que integro, dentro e fora do Brasil. Ademias, estou encaminhando para a Sinduecee para o ANDES.

    10) Ainda não tive possibilidade de entrar no Campus Fátima para averiguar condições de salubridade dos estudantes em Isolamento.

    11) O artigo com título provisório “Um carrasco e um capelo” sairá no ano de 2026.