28/12/2025
Em PDF o 2º Relatório sobre as condições dos estudantes isolados no CH-UECE
Para iniciar, gostaria de fazer um desagravo a Paulo Freire, patrono da educação brasileira, autor brasileiro mais citado no mundo. Explico: meu relatório preliminar do dia 26 de dezembro de 2025 foi sumariamente rejeitado pela administração da UECE. A alegação que ouvi foi: “você está fazendo propaganda porque apoia a ocupação”. Além de ter meus métodos e meu caráter, como pesquisador, colocado em questão pelas instâncias administrativas que mantém a instituição em que eu trabalho, devo advertir para a falácia do recurso contra a pessoa de referida abordagem. Mas pelo caráter do meu trabalho no Labipol, não espero nada diferente daqueles que são objetos da minha pesquisa. Desagravo, todavia, Paulo Freire, para quem a educação transformadora deve ser engajada. Desagravo a boa tradição de Florestan Fernandes, que tinha lado e tinha método. Desagravo, portanto, a todos os pesquisadores e pesquisadoras que se recusam a separar a pesquisa da participação ativa na sociedade. Quem conhece não é um ente abstrato, mas uma pessoa viva e parte daquilo que investiga. Não há demérito para pesquisadores que reconhecem que seus corpos são só um e que, portanto, estão na luta e na pesquisa, ao mesmo tempo. Tenho convicção de que a mensagem dirigida a mim não é aquela que é ensinada nas salas de aula e projetos de pesquisa da UECE. Oxalá, nunca seja.
Dito isso, segue uma nova parte do relatório, agora com conteúdo crítico:
1) A vida na Universidade é complexa. A conflituosidade é constante. Quando inventaram a universidade, já há quase mil anos, creio que a ideia era a manutenção desse conflito. Por qual razão, então, pegar dezenas e centenas (hoje, milhares) de pessoas diferentes, pesquisadores geniais, para reunir num só lugar, senão para produzir confrontos de ideias e melhoramento do conhecimento? Isso é a vida acadêmica, bem como o pólemos natural da vida política. Eu sou um professor que tem esperanças construtivistas, devido minha formação idealista na UFC: eu creio que essa conflituosidade é importante para a formação dos estudantes e dos professores. Nunca houve, no que pude presenciar, ataques de cunho misógino. A alegação é de que um trocadilho, numa parede, foi misoginia (padaria – paudaria). Eu poderia fazer explicações psicanalíticas da coisa, mas vou me abster.
2) Há, claro, conflitos com a diretora, mas em toda relação de interesse isso é natural. Há o interesse da instituição e o interesse dos estudantes. Os dois agentes políticos precisam expor suas divergências, mas nenhuma agressão foi registrada. Há troca de acusações, mas nada que exceda a normalidade dos espaços que se queiram plurais, até onde tive conhecimento. Obtive relatos, porém, de ameaças do batalhão de choque no campus universitário e ameaças de expulsão da universidade. Também é público que os estudantes foram denunciados à polícia por danos ao patrimônio. A forma da denúncia foi de tal forma irresponsável, que até um oficial do exército brasileiro foi denunciado. Eu sei disso, pois o oficial é meu aluno e estava na sala dos estudantes para assistir minha aula, que foi remota por eu estar com problemas de controle de pressão arterial e não ter mais tempo para repor a aula em outro dia. Tenho relatos, também, de assédio moral praticado pela diretora contra um aluno da UECE que também era funcionário precarizado. O aluno foi perguntado sobre sua opinião sobre a ocupação. Revelou concordar e foi demitido, segundo apuração minha, com base numa foto em que ele não aparece e uma outra, em que aparece na janela. O acesso ao documento, concretamente, não foi possível. Estamos tentando conseguir com a advogada do movimento. Se não for possível, pediremos via Lei de Acesso à Informação.
3) Dessa forma, devo dizer que as notas das coordenações contra a ocupação foram apressadas e com base em antipatias. Digo isso porque não ouviram os lados e produziram uma autodefesa corporativista, analiso. Isso, aliás, é muito comum entre nós, professores. O que obtive é que a nota do Curso de Letras saiu da coordenação, não do colegiado – uma professora de Letras me relatou que não foi comunicada de nenhuma nota.
4) Sim, sou apoiador do movimento. Sou apoiador por coerência. Meu Colegiado aprovou a demanda e foi responsável por conceber o espaço da Sala dos Estudantes. A então direção acolheu e construiu o espaço. Nossos estudantes têm perfil de renda muito baixo. São carentes de tudo. De cultura, inclusive. O espaço da Sala dos Estudantes foi pensado para promover cultura, confraternizações, descanso e estudo. Tínhamos bolsistas lá, para cuidar de tudo. Funcionava bem.
5) Ao O Povo, a administração afirma que a Sala dos Estudantes não estava sendo usada. Não é verdade que o espaço não estava sendo usado. Obviamente, na pandemia ele esteve fechado, como toda a universidade. Foram anos sem funcionamento de nada acadêmico nos espaços da UECE. Mas desde o retorno, a sala foi sim usada. Com menos frequência, é claro, porque a Universidade muda de geração rapidamente. Os estudantes que receberam a Sala dos Estudantes não foram os estudantes que voltaram da pandemia. Então é preciso reapresentar o equipamento às pessoas. Além disso, eu mesmo tenho um projeto de extensão (uma oficina de fotografia chamada Filosofia na caixa-preta – inspirado por Flusser) pensado para acontecer na sala dos estudantes, que tinha baixa luminosidade natural e um fundo infinito excelente. Quando pedi a sala, fui informado que estava indisponível e aloquei o meu projeto em uma sala de aula normal. Até então, não sabia nada sobre a descontinuidade da sala dos estudantes. Fui saber que a sala já não era dos estudantes quando a ocupação começou, pois só tinha noção de que “queria acabar com a sala”, e eu fui contra. Com isso, desmonto a ideia de que a sala foi ocupada por ordem ou comando de professores do Curso de Filosofia. Isso é um absurdo, primeiro por negar a honradez dos professores, mas fundamentalmente, por negar a autonomia dos movimentos estudantis. Sempre que um aluno me perguntou sobre o que acho sobre a retirada da Sala do Estudantes, eu respondi muito sincera e coerentemente com meu colegiado: “sou contra. É um absurdo”. Daí a supor que eu sou liderança dos estudantes, acho que é demasiadamente criativo.
6) Desde a criminalização do movimento Palestina Teimosa, porém, eu mudei minha forma de olhar para a ocupação. Antes, apoiador distante que nunca tinha estado no espaço ocupado, passei a ser um pesquisador em ação e engajamento. O laboratório que eu coordeno (Labipol) tem escopo no estudo da transformação da política em violência. Nossa ideia é a recusa da proposta de Arendt segundo a qual, ou bem prevalece a política, ou bem prevalece a violência. Não: nossa metodologia diz que há estados limites em que a política se torna violência; a violência se torna uma política. O exemplo histórico clássico e extremo é o fascismo. Pois bem: desde a criminalização do movimento político, eu comecei a olhar a coisa com atenção, pois me pareceu um caso típico que merece ser estudado. E desde o ofício do reitor, que usa técnicas policiais de isolamento, restrição de alimentação, violência psicológica e humilhação, eu entrei em campo como entidade de pesquisa da UECE, em definitivo.
7) A UECE diz ao O Povo que o fechamento do campus é normal. Sou professor da UECE há 11 anos e nunca houve ordens para que um professor não pudesse entrar no campus. Como digo no meu primeiro relatório, isso é inédito. Até porque somos servidores da casa, responsáveis pela proteção do patrimônio, também. Qual o dano eu, professor da casa, poderia causar? A vida acadêmica nos exige, no Brasil, trabalhar nas férias, nas madrugadas, nos finais de semana etc. Eu já fui para bancas de defesa, no Centro de Humanidades, no meio do recesso entre Natal e Ano Novo. Aliás, eu já fui acordado 3h da manhã para ir ao Centro acordar o Segurança, porque a Enel precisava resolver um problema na subestação elétrica do campus para um concurso, no outro dia (o campus estava sem luz). Nunca fui barrado na porta, em qualquer horário e dia do ano. Então, a nota apresentada pela reitoria, que atesta uma normalidade do caso do fechamento do campus, não corresponde com a verdade.
8) Desde o dia 24 eu tento entrar no campus, como pesquisador, para ver de perto se há, de fato, situações de vulnerabilidade. Já telefonei para o reitor, chefe de gabinete, diretora e prefeito. Os dois mandatários não me atendem. Os dois subordinados mandam falar com o superior. Consegui ter respostas do chefe de gabinete, que disse, em todos os casos, ter encaminhado ao reitor. Nenhuma resposta. Tenho ofício protocolado para entrar no campus. Sem resposta. Como eu disse, faço isso, agora, como pesquisador (meu apoio continua, mas meus interesses agora são acadêmicos). O Labipol tem, no seu projeto, a ideia de que se temos a informação de um caso de violência, não é possível permanecer sabendo e não agir. Estou agindo, agora, para garantir medicamentos, comida, água, segurança etc. aos estudantes. Saber se os alunos estão bem psicologicamente, apesar do meu apoio à causa deles, que também é minha, é uma atividade do laboratório que faço parte. Identificamos, sim, que os estudantes estão vulneráveis. Isso é fato, uma vez que estão em isolamento e sob vigilância. Desta vulnerabilidade, que riscos derivam? É minha função como pesquisador saber e prover, na medida do possível, através da mobilização de pessoas, instituições e políticos. Estamos fazendo isso, todos os dias, desde o isolamento.
9) Em nota ao O Povo, a reitoria diz que os estudantes têm acesso a comida vinda de fora. Isso não foi negado no meu relatório do dia 26/12. Afirmei que a alimentação dependia desse auxílio externo. As respostas ao questionário, portanto, apresentavam uma falta de certeza de que teriam uma próxima alimentação (conceito de insegurança alimentar) e baixo consume de nutrientes, embora o relatório anterior tenha afirmado para a presença de calorias suficientes, com baixo teor nutritivo. Portanto, não houve, por parte da reitoria, uma resposta adequada ao que foi apresentado anteriormente. Mantenho: é fato que há riscos alimentares por conta da decisão da UECE de isolar os estudantes. Isso, para mim, já é uma questão indiscutível. A UECE restringiu a saída, uma vez que proíbe o retorno. Os estudantes estão proibidos, por conta disso, de se deslocar em busca de alimento. Sendo assim, os alunos precisam receber comida de fora e, por isso, dependem de terceiros. Portanto, identifico coerência com os relatos do questionário.
10) Inicialmente, o reitor ordenou que somente os seguranças poderiam receber alimentos, o que restringiu ainda mais a situação de alimentação. Isso foi flexibilizado. No Natal, conseguiu-se montar uma ceia para os estudantes e eles comeram os restos da ceia até ontem (não pude observar as condições de preservação, por isso apontei para riscos de doenças gastrointestinais), dia 27/12, quando alguém financiou uma noite de pizza. Então, nesses dois dias, eles tiveram acesso a comida de qualidade. No tempo restante, o relato é o consumo de comidas de baixa qualidade, uma vez que eles estão impedidos de usar a copa do campus. Providenciei, em conjunto com outras pessoas, algumas frutas para uma nutrição mais adequada, mas não tenho como saber se foi suficiente e eficaz, uma vez que não sou nutricionista.
11) Enfim, esses são dados coletados em campo. São dados coletados com método científico. Uma vez que não pude entrar no campus para ver pessoalmente, a coleta de informação é baseada em questionários e observação participativa, em campo.
12) A nota que a reitoria apresentou ao O Povo diz que os estudantes têm acesso à água. Não disse, no meu relatório do dia 26/12, que eles estavam sem água. Eu digo que esse não está sendo um problema para a maioria dos ocupantes, embora tenha coletado relatos de baixa higiene do local. Essa é uma resposta que foge do campo das preocupações apresentadas no relatório preliminar.
13) A reitoria afirma haver luz para os estudantes. Meu relatório não afirmou que não existe luz elétrica. Esse, por enquanto, não está sendo um problema, embora eu mesmo tenha sido impedido de usar uma tomada elétrica, no dia de ontem. A reitoria, portanto, responde algo que não tinha sido levantado. O que sabemos é que o CA de Serviço Social emprestou um fogão elétrico para que eles possam esquentar água, mas que não é forte o suficiente para fazer comida. Portanto, a única relação entre a luz elétrica e a nutrição dos alunos é o fato de poderem tomar café e chá, o que é uma bom recurso para manter a moral elevada.
14) A reitoria diz que os estudantes têm acesso ao banheiro, na nota ao jornal O povo. Isso não era verdade, até o primeiro dia de isolamento. Não havia, no plano do reitor, acesso ao chuveiro. Os estudantes, proibidos de usar o Bloco A, onde tem chuveiro, perguntaram ao guarda como poderiam tomar banho e o guarda mandou usarem um balde velho, que fica no estacionamento do campus para lavar carros. Depois da forte repercussão, foi cedido um banheiro com chuveiro que, segundo relatos, está em péssimas condições. Não pude ver, mas conta-se que há caixa de passagem de água (esgoto) na porta do banheiro, o que o torna insalubre. Além disso, o vaso sanitário não tem tábua para a proteção das meninas da ocupação. Conta-se que a porta não é segura o suficiente para garantir privacidade e que a caixa de passagem tem ratos e baratas, o que é um risco para a saúde dos estudantes.
15) Mas esse banheiro não esteve em questão no primeiro dia, como plano A. A técnica policial de isolamento prevê algumas condições de humilhação para quebrar os sujeitos psicologicamente, a fim de desistirem do ato. Isso é bastante estudado em termos críticos, na sociologia da violência. O banheiro foi plano B, uma vez que entidades de direitos humanos deram parecer negativo sobre isso. Afirmo que é plano B com base no fato de que a chave do banheiro precisou vir de fora do campus e ser entregue aos seguranças, ao longo do primeiro dia. Ou seja, não estava planejado ter um banheiro de banho. Eu estive no CH nesse dia e esse relato veio do segurança no local. Tenho a gravação e isso estrará no relatório final.
16) A nota da Reitoria ao O povo não faz referência, porém, ao alerta mais radical que eu faço no relatório. Danos psicológicos e morais. Os alunos estão submetidos a condições de isolamento. Isso traz danos. Além disso, a técnica de isolar para desmoralizar o movimento é notoriamente usada pela polícia do mundo e já há estudos do tipo de dano psicológico e moral que traz. Os estudantes estão isolados da família, dependem de outros para alimentação e têm condições de higiene precárias, além de estarem sendo constantemente vigiados, como já alertei no primeiro relatório preliminar. Devo lembrar que eles são ESTUDANTES. Não estou falando de um presídio, mas da Universidade Estadual do Ceará.
