Mike Spector, MB Pell, Benjamin Lesser, Ned Parker e Isaac Vargas assinaram reportagem na Thomson Reuters, nesse dia 17 de janeiro, onde dão conta de um plano revanchista da administração Trump contra os procuradores que investigaram o 6 de janeiro.
Ed Martin, alto funcionário do Departamento de Justiça do EUA, indicado por Trump, afirmou em entrevista ao extremista Steve Bannon: “precisamos de mais condenações”, referindo-se aos procuradores do caso.
Martin ainda defendeu, em entrevista à Fox News, que seu grupo de trabalho sobre o 6 de janeiro é “uma investigação completa no dia 6 de janeiro, que deixará clara a farsa, que na verdade é a farsa das eleições de 2020.”
Ed Martin é assessorado por Jared Wise, ex-FBI, um dos invasores do Congresso do EUA que, segundo as investigações, incitou a multidão a matar policiais. Ele foi indultado por Trump no início do seu segundo governo.
“Não creio que alguém com um senso objetivo de realidade possa olhar para o Departamento de Justiça neste momento e afirmar honestamente que ele está agindo como um árbitro neutro”, afirma o ex-procurador do 6 de janeiro, Matthew Beckwith, demitido por Ed Martin.
Análise de Francisco Teixeira
O que temos observado, em todo a parte onde os movimentos de extrema direita tenham tomado corpo e o poder, é o ataque renitente às instituições de justiça. Até onde temos notícias, contemporaneamente esse modelo foi testa pela primeira vez na Hungria, por Viktor Orbán, e se tornou um tanto como modelo dos blocos fascistas. Atacar, gradual e continuamente o poder judiciário, que tem sido, segundo observamos, uma contenção aos impulsos violentos dos governos extremistas.
Não dizemos, com isso, que a casta judiciária seja algo de mais puro e sublime, mas por serem a mais pura expressão do status quo, tendem, com toda coerência, a manterem-se como entrava à grandes novidades institucionais e normativas. Trata-se de uma classe um tanto mais intelectualizada do que os grupos políticos e, com isso, mais consequentes e tementes ao modelo liberal-burguês. Por isso, o método de Orbán, onde se rompe as resistências do judiciário lentamente torna-se o mais adequado.
Trump, como Bolsonaro, não tão sutis, atacaram o judiciário de frente e tiveram resistência sólida. Ambos, porém, buscaram cooptar as supremas cortes dos seus países. Trump teve mais sucesso. Hoje, Bolsonaro está preso. Não terá chance, por suas próprias mãos, de sabotar o sistema judiciário. Trump, por outro lado, retornou ao poder e hoje tenta destruir o sistema de justiça pela criação do caos. Agindo frequentemente na exceção à regra, com um salvo-conduto da Suprema Corte, Trump usa um caminho mais rápido e, ao que tudo indica, eficaz: ele está desmontando o sistema judiciário americano com ataques pontuais e constantes, dos quais, quem sabe, sobrará alguma coisa no final.