Terceiro relatório sobre as condições dos estudantes isolados no CH-UECE
02/01/2026
1) A ocupação Palestina Teimosa segue isolada no Centro de Humanidades da UECE. Apoiadores externos promoveram atividades da calçada do campus – apresentações artísticas, aulas e confraternizações. Não conversei com nenhum dos sujeitos em isolamento sobre isso, mas me parece ter mitigado a sensação de isolamento deles.
2) Nas redes sociais, os estudantes continuam apresentando sentimentos de raiva, impotência e revolta com a Reitoria da Universidade Estadual do Ceará. As reclamações aumentaram com uma nota enviada via mala direta à toda a comunidade acadêmica, com informações consideradas falsas e enganadoras. Os estudantes lançaram uma segunda nota, em resposta, mas demonstraram profunda decepção, no dia 31, por não conseguirem enviar para a comunidade acadêmica, por lhes faltarem acesso à mala direta.
3) Tenho notado que o comprometimento psicológico e moral dos estudantes se agravou. Eles estão contando menos piadas e rindo menos. Demonstram-se introspectivos e, por vezes, sem esperança. Considero isso um alerta importante, dado o histórico de depressão relatado no primeiro relatório.
4) No decorrer da semana entre Natal e Ano Novo, os estudantes receberam familiares, mas também perderam algum dos integrantes da ocupação. Um deles relatou infecção na garganta. Outro sujeito relatou dor na garganta, no dia 31. Tenho evitado fazer perguntas aos sujeitos da ocupação. Só busco saber sobre as condições de alimentação e água, que são casos mais emergenciais para uma ação deste Laboratório.
5) Quanto a alimentação, ao que tudo indica tivemos uma melhora. Os estudantes receberam boa quantidade de alimentos cozidos, pizza, esfirras e algumas frutas. A questão central continua sendo a preservação dos alimentos e a impossibilidade de esquentá-los. A reclamação segue sendo o decaimento dos alimentos no decorrer das refeições. Há relatos de produtos estragados e a impossibilidade de consumo de bebidas frias. O consumo de água segue o já relatado. Considero, até onde pude saber, que alimentação não está sendo uma questão de preocupação, nesse dia de hoje.
6) A higiene é uma questão. Embora tenha recebido relatos de que os alunos revezam a limpeza dos espaços utilizados, o informe de retos, baratas e outros questões sanitárias são constantes. Alerto à comunidade que tais animais são vetores de doenças graves e que a exposição a eles deve ser um alerta importante.
Considerações críticas
7) Os sujeitos são considerados, por este Laboratório, em exposição e vulnerabilidade. Consideramos que a decisão da UECE é a responsável por colocar os estudantes em vulnerabilidade. Pode-se alegar que eles podem sair e, por isso, não são vulneráveis. Mas o dilema ético imposto pela reitoria (sair e renunciar à causa, ficar e permanecer em vulnerabilidade) consuma um fato: eles são vulneráveis. A reitoria alerta para controle de entrada e saída. Ora, seria possível manter controle de entrada e saída dos estudantes, para que pudessem ir em casa, ver seus familiares, descansarem, comerem bem etc. A decisão da reitoria, por outro lado, abdica de tal solução razoável, mantendo a tática policial de destruição moral e psicológica. Não há, portanto, segundo relatos da reitoria, uma situação sem escolha.
8) Além disso, se o controle de entrada é fundamental para a preservação do patrimônio, por qual razão servidores e professores estão impedidos de entrar? A função de preservar o patrimônio é compartilhada entre o reitor e este servidor. Entendo e defendo que a universidade tem uso específico, mesmo sendo pública, mas eu e meus colegas somos o público específico desta universidade, não? Soa profundamente estranho que o reitor queira manter professores longe da ocupação.
9) Quanto ao ofício de solicitação de entrada no campus que eu enviei para a reitoria, como já relatado, só recebi uma mensagem, via Assessoria Jurídica. Algo que me soou um tanto intimidatório:
A) A Asjur acha estranho o caráter interventivo do Labipol e solicita documentações do laboratório, o que me pareceu uma estratégia de deslegitimação do trabalho de pesquisadores experientes e jovens pesquisadores que estão atuando em 3 países diferentes. O Labipol surge do Grupo de Pesquisa Política e Violência. Começou sua organização em 2023, ainda vinculado ao Lapovili, quando estivem em missão de pesquisa em Coimbra e me deparei com os discursos xenofóbicos e racistas, bem como a ascensão do novo extremismo de direita na Europa, tal como tinha visto no Brasil. Organizei com colegas para mantermos a observações dos acontecimentos e produzi, junto com minha supervisora no IEF-UC, Doutora Marcela Uchôa, dois textos seminais para a organização do Labipol. Apenas em 2025, com minha saída do Lapovili, tive o ímpeto de criar um laboratório específico, com escopo coincidente do Grupo de Pesquisa citado. Em novembro, com a organização do V Colóquio Teoria Crítica, na UFC, vi a oportunidade de me juntar aos colegas e promover a institucionalização do Labipol. Comprei o domínio da internet em novembro e com o fim do semestre letivo, entre o final de novembro e o começo de dezembro, institucionalizei o Laboratório de Violência e Política, que já foi aprovado por unanimidade no Concelho do Centro de Humanidades e está sob a guarda do PROPGPq, da UECE. Como prática institucional, a UECE considera a fundação com a data retroativa do início do processo, portanto, o Labipol é um laboratório da UECE de FATO.
B) A Asjur afirma que informei “visita in locu ao CH”, mas não há essa afirmação nos meus relatórios. Aliás, o meu pedido inicial é entrar no CH, como eu poderia pedir para entrar no CH se eu estivesse entrando no CH? Estive sim no lado de fora do CH e pedi para entrar, mas como informei, não me foi autorizado. A Asjur tenta formular algo como uma entrada forçada da minha parte? Sempre pensei que a Assessoria Jurídica da UECE tinha função, inclusive, de garantir a liberdade de cátedra e de pesquisa, não de criar factoides para tentar constranger os pesquisadores da instituição.
C) A Asjur informa que eu apliquei questionários de forma irregular, pois todas as pesquisas com seres humanos requereriam passagem por um Comitê de Ética. Devo dizer que, se esse for o caso, uma grande parcela de pesquisas sociais da UECE e de outras instituições do mundo estão fadadas a sumir. Veja: há um erro factual das Asjur, que deve desconhecer a Resolução nº 5, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde. O princípio norteador é que a pesquisa em Ciências Humanas e Sociais são eticamente corretas se não criam danos ou riscos maiores do que a própria vida dos sujeitos. Todavia, mesmo que este pesquisador esteja respaldado pelas resoluções de pesquisa, tomamos todos as precauções, como apresentar TCLE com informações de possíveis riscos e a inexistência de sansões por desistência (https://labipol.com.br/questionario-sobre-condicoes-fisicas-morais-e-psicologicas-dos-alunos-da-ocupacao-palestina-teimosa/). Sobre conflitos de interesse, todos eles estão relatados nos relatórios preliminares, onde indico ser apoiador do movimento, e como se deve saber, não recebo dinheiro dos estudantes ou do Movimento Estudantil para apoiá-los.
D) Ademais, meu interesse de conhecer o caso da Ocupação Palestina Teimosa decorre de um fato único e inesperado. Os fatos impuseram metodologia, não o inverso. O primeiro desenho metodológico realizado surge diante de três urgências: a) produzir conhecimento sem ter acesso ao espaço interno do prédio onde os estudantes estão isolados; b) conhecer (para responder) qualquer urgente demanda que pusesse os estudantes em risco imediato (e três foram identificadas); c) saber o que fazer em um caso de emergência. Optar pelo questionário on-line foi a melhor estratégia que avaliei, uma vez que eu não teria contato direto com os sujeitos, garantido o anonimato e não gerando constrangimentos. Os achados, que impuseram ações imediatas, foram relatados na primeira preliminar e no seu adendo.
E) A Asjur ainda faz menção a um possível viés da minha pesquisa, já que eu declaro apoiar o movimento. Esse é o ponto mais grave levantado pela acusação. A Assessoria Jurídica da UECE não se conteve em fazer análises metodológicas, mas também fez apreciações de conteúdo, com isso. Devo alertar para o risco do precedente de um órgão jurídico assumir a função de par, no sentido de promover evidente entrave para a produção do conhecimento e um movimento evidente de intimidação.
F) A Asjur não é referee de pesquisa científica. Considero gravíssimo que assim se porte. Dado uma solicitação clara e fundamentada de entrada de um professor e pesquisador da UECE no Campus Fátima, a Asjur procedeu um verdadeiro inquérito do santo ofício. Nesse sentido, estou encaminhando tal relato para meus superiores acadêmicos na UECE, meus colegas de Grupos de Pesquisa, para as sociedades científicas que integro, dentro e fora do Brasil. Ademias, estou encaminhando para a Sinduecee para o ANDES.
10) Ainda não tive possibilidade de entrar no Campus Fátima para averiguar condições de salubridade dos estudantes em Isolamento.
11) O artigo com título provisório “Um carrasco e um capelo” sairá no ano de 2026.


