O pesquisador do Labipol, Francisco Teixeira, está observando a situação da ocupação do Centro de Humanidades da UECE. O relato é o seguinte:
Fui ao Centro de Humanidades da UECE no dia 24 de dezembro de 2025, dia em que começou o isolamento dos estudantes da ocupação Palestina Teimosa. A intenção era analisar as condições em que os estudantes da ocupação Palestina Teimosa se encontravam isolados. Não houve autorização de entrada. A alegação era de que só o reitor poderia permitir acesso ao campus. Observo que sou professor da UECE há 11 anos e que tal situação de proibição da entrada é inédita. Os centros fecham de costume, mas nunca com proibição de entrada, uma vez que as atividades acadêmicas, no geral, precisam ter alguma fluidez de datas e horários, dados os prazos fixados por órgãos exteriores.
No dia 25, tentei contato com representantes da UECE, mas não tive sucesso – talvez por ser o dia de Natal. Hoje, dia 26 de dezembro, oficiei o gabinete do Reitor, a fim de conseguir autorização para entrar no campus e verificar a condição a que os estudantes estão submetidos, dado que eles estão em condição de vulnerabilidade e exposição. O protocolo do ofício é 31032.013124/2025-78 e foi protocolado às 09:21 do dia 26 de dezembro. Até o momento, não se verifica movimentação do documento. Também enviei o ofício para os e-mails institucionais do sr. Reitor e do seu Chefe de Gabinete. Não tive retorno até às 19h do dia 26 de dezembro. Estou aguardando.
Dado que a demora pode trazer danos irreparáveis, conjuntamente com o ofício, entrei em contato com alguns membros da ocupação que são meus alunos. Solicitei que eles respondessem um questionário sigiloso, a fim de saber a que tipo de situações eles estão submetidos e para verificar se há algo que mereça imediata ação do poder público.
Como resultado do questionário, identifiquei que três dos integrantes possuem doenças crônicas. Dois tomam remédios de uso contínuo. Um deles está com o remédio em mãos e, perguntado, disse que está tomando seu medicamento como prescrito. O outro, com problemas respiratórios, está sem acesso ao remédio. Dado que o questionário era de identificação opcional e o referido sujeito não se identificou, pedi aos integrantes conhecidos que coletassem a informação no local. Conseguimos saber qual a doença e qual o medicamento. Dado que o escopo do Labipol nos obriga à ação, em caso de informações como essas, passei a providenciar o remédio indicado e procederei, como for possível, a entrega do remédio na ocupação, preservando o anonimato do estudante. Fiz uma consulta a um médico, para saber se há algum risco envolvido em ter um paciente com tal quadro em isolamento, bem como saber qual procedimento de emergência seria necessário ter em vista. Até o memento, não tive resposta.
Nenhum dos que responderam ao questionário relatou histórico de convulsão, mas um dos sujeitos relatou ter tido desmaios. Esse é um ponto preocupante e mostra uma vulnerabilidade a mais para estudantes em isolamento. Além disso, dois relataram não ter sido imunizado contra o vírus causador da COVID-19. Tal situação também é preocupante, uma vez que os estudantes estão em ambientes fechados e propícios à proliferação de doenças infecciosas.
Alarmante, porém, é o relato de histórico de depressão de 6 dos integrantes. O fato de estarem em isolamento da família, em festas de final de ano, pode significar uma condição-gatilho para novos episódios, principalmente porque nenhum dos que responderam ao questionário relatou estar fazendo uso de remédios antidepressivos.
Não há relato de alergias alimentares, mas sim de alergias de pele. Um relato específico de dermatite, mas não sei a gravidade disso e não tenho como saber, já que o sujeito não quis se identificar. Aliás, chamou a minha atenção o fato de que apenas 3 dos sujeitos quis se identificar e apenas dois deles quiseram apresentar um contato de emergência. Isso pode demonstrar um estado de medo e desconfiança da instituição, da qual eu sou parte.
O consumo de água não está sendo um problema, para a maioria dos que responderam ao questionário, embora se relate deficiente higiene da fonte de água potável. Dois dos participantes afirmaram estar consumindo menos água do que o necessário.
A alimentação, por outro lado, se apresentou como uma preocupação. Apenas dois dos participantes que responderam ao questionário relataram ter como segura a próxima refeição. Os mesmos dois afirmam estar comendo o suficiente, todo dia. A maior parte não se sente em segurança alimentar e diz estar comendo menos do que o necessário para matar a própria fome. Eu fiquei mais preocupado, porém quando verifiquei o conteúdo da alimentação dos participantes. A maior parte dos produtos consumidos são industrializados de alto valor calórico, mas baixa nutrição. Muitos relataram o consumo de macarrão instantâneo, panetone e industrializados. Eles não podem comer nada que seja fresco, uma vez que não possuem acesso à copa do campus universitário, por ordem superior (não se sabe de quem partiu a ordem). A salvação, porém, foi a ceia de Natal que vários apoiadores da ocupação fizeram para os estudantes em isolamento. Hoje, dia 26, tive relato de que eles ainda estão consumindo os restos da ceia. Não pude verificar as condições de preservação do alimento. Supondo que existe refrigeração, ainda assim as condições são precárias e o risco de problemas gastrointestinais é real. Esse é um alerta de segurança alimentar grave: ao que parece, há calorias disponíveis, mas com baixa qualidade nutritiva. A preocupação se torna maior por conta dos relatos sobre as condições de higiene a que estão submetidos.
O local de banho, segundo os relatos, é ruim. Não há tampa no vaso para a proteção das mulheres. A porta não é segura para garantir a privacidade. Há uma caixa de passagem de água (ou esgoto) do lado do banheiro, que torna o uso bastante complicado, com odores fortes, principalmente para as mulheres da ocupação. Mas ainda é melhor do que o balde e a cuia oferecidos inicialmente.
Dos que responderam ao questionário, 5 relataram estar com medo de estar no CH. Deles, 4 relataram já ter perdido o sono pela tensão de estar no Centro. Os mesmos 5 relatam ameaças, principalmente de expulsão da universidade, que partiu da Diretora do CH. Há relatos de ameaças partindo dos seguranças. Também há relato de humilhação, como tentativa de agrupamento para contagem, negação do banho, condições sanitárias insalubres. Um relato foi assustador, pelo seu conteúdo perverso: um dos ocupantes relata que a mãe foi visitá-lo na ocupação para deixar comida. O portão foi aberto para a entrega da panela. A mãe pediu para abraçar o seu filho e isso foi negado pelo segurança. Disse que somente com autorização isso seria possível. É claro o complexo de zé-ninguém nessa situação, não sendo possível crer que tal ordem tenha vindo da reitoria, especificamente. Mas a autoridade vem sempre de cima e o resguardo de tal atitude está no documento do sr. Reitor, como a literatura indica.
A maior parte dos que responderam ao questionário declararam alguma reação ao isolamento social causado. Foi relatado crises de ansiedade e choro por não ver amigos e familiares no Natal. Relatos de sentimento de raiva e indignação. Há também o relato de perturbação por estar se sentindo vigiado quando anoitece (um alerta para danos psicológicos). Há, também, um relato de confiança e camaradagem: “tranquilo, confia nos companheiros”.
Eu perguntei, ainda, se os estudantes receberam algum suporte da Administração da UECE. Não há relatos. Perguntei se a UECE está dando algum amparo psicológico aos estudantes isolados. Não obtivo relatos. Perguntei se a Administração Superior demonstrou alguma preocupação sobre a segurança alimentar dos estudantes. Não obtivo relatos. Perguntei se a UECE entrou em conato com algum dos estudantes. Não achei nada. Perguntei sobre a visita de alguém da administração da UECE. Não houve relatos.
Por fim, com base nesses relatos preliminares, devo dizer que há evidentes indícios de vulnerabilidade alimentar e de higiene. Um caso específico, porém, é de maior gravidade. Há o relato de um ocupante que já passou por transplante, o que me indica, embora não possa dizer com certeza, que a alimentação precária pode afetar com mais gravidade. Todavia, de modo geral, me preocupa os relatos de ansiedade, medo, tristeza, revolta, impotência e raiva. Somado aos históricos de depressão relatados, podemos estar diante de danos psicológicos já consolidados. Em termos de danos à dignidade e à autorrealização ética dos sujeitos, devo dizer que considero consolidado o dano. O empenho dos estudantes em permanecerem, mesmo em isolamento e nessas condições sanitárias, só pode ser um registro de luta por reconhecimento desse direito à autorrealização.
Adendo (27/12/2025 – 10:23)
Recebi um outro formulário na noite do dia 26, logo depois de ter redigido o relatório preliminar. O caso em questão é de extrema importância. O sujeito alegou possuir: a) problemas de tireoide (e agora já sabemos de dois casos desse tipo); b) depressão, acrescentando mais um caso ao já relatado; c) e epilepsia (nesse caso, entendemos a relutância do sujeito em responder ao questionário, uma vez que a epilepsia, por preconceitos milenares, é envolta em tabus). Trata-se de um quadro médico que eu conheço, por ter pessoas na família com a mesma patologia. Não ousaria criar uma lista de procedimentos, em caso de emergência, de modo que estou encaminhando a situação para um parecer médico. As perguntas encaminhadas para o parecer médico são: 1) quais os riscos que precisamos ter conhecimento de jovens que possuem tais patologias em caso de isolamento compulsório. 2) Quais procedimentos são recomendados, em casos de isolamento. Quando tiver resposta, farei um informa detalhado aos estudantes, caso seja necessário.
Ademais, o relatório indica uma lista de remédios longa, todos de uso controlado, com exceção de um remédio para rinite, que tem venda sem retenção de receita. Estou buscando contato com o sujeito para saber se ele está tomando os remédios, como prescrito, e se teve algum sintoma importante, que seja importante saber. Evidente, o relato será passado para especialistas, uma vez que não sou médico.
Há, portanto, um relato de crises convulsivas, mais um de desmaio e mais um de depressão. Houve relato, ainda, de necessidade de suporte nível 2, devido a TEA. Estou encaminhando esse relato para o Núcleo de Apoio à Acessibilidade e Inclusão (NAAI/UECE). Como apreciação pessoal, reproduzindo a Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas, “direitos das pessoas com deficiência são direitos civis. São direitos humanos. Garantir acessibilidade, reconhecimento, respeito e participação plena é garantir que a democracia atinja, de fato, todos os cidadãos”. Isso posto, perguntei se o sujeito recebeu algum suporte, apoio ou se teve alguma comunicação por parte da administração da UECE e a resposta foi: não.


